E nesse mundo cheio
Eu tenho o meio certo
De te trazer pra perto.
Mas mudo e meio
Permaneço cheio
Desse meu deserto.
Espia em medo
O meio copo
De saudades cheio.
Entornado ao seio
Nem mais cheio nem meio.
Oco e tanto.


A ferida por vezes lateja,
Por vezes coça,
Por vezes inflama.
E se não a vejo
O dedo sente.
Alerta a chegada dos pingos
Avermelhadamente.
E cicatrizada
Ainda é ferida viva.
E ela do dedo se esquiva.
Ela do dedo tem medo.
[Carolina Miquelassi]
[19.12 / 04:35]

Anestesiante passagem das horas
Tantas horas que se fizeram vida
E da vida não posso esquecer
Fez-me carvão incandescente
Fez-me cantante e demente
Mas nunca na vida infeliz
Não havia lugar para arder
Não havia tempo para amar
Mas havia pra não morrer
Colhe-me o que resta de amor
E sempre há de restar amor
Homem-anjo de fogo e sangue
[Carolina Miquelassi]
[06.11 / 16:01]

Versos postumamente lúbricos.
Quero te dar meu corpo em negros lençóis azuis
de rubro cetim macio e brilhante.
Dar-te corpo apenas, nada mais.
Porque nada mais de mim necessitas.
Palmilhando cada poro teu
e deles fazer sangrar teu suor sacrifício.
Cada milímetro de pele memorizado.
Arrancar-te pequenos vestígios,
guardados sob as unhas.
Toda curva e ondulação, protuberância,
gravadas na memória táctil de minha língua.
E não saber mais onde finda minhas mãos
e principia teus cabelos.
Nos teus joelhos pousar um beijo
avançando longa e lentamente...
Doloroso prazer causar-te aos meus lábios
em que língua e leite não se separem.
Na garganta deixar brotar rouco
o som da fonte desse mistério.
E ver que o tudo é sempre tão pouco
sem alma, o teu amor estéril.
Carolina Miquelassi
...
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Ao som d'O Teatro Mágico - O Anjo Mais Velho[23:30]
