Danae

Danae
Klimt, Gustav

segunda-feira, junho 23, 2008

Kate Winslet, blues, o cigarro que eu não fumei e minhas primeiras impressões sobre tudo.


Que eu tenho problemas além dos mentais e financeiros isso não é novidade pra ninguém. Mas um dos meus grandes problemas é o de não dar ouvidos quando alguém me diz
- Hei, aquela cantora pow... massa demais, vc devia ouvir, ta todo mundo ouvindo!
- unhum
Não é que eu tenha problemas em seguir conselhos, quer dizer eu tenho, mas não é bem o caso. O problema mesmo é esse trechinho “ta todo mundo ouvindo”. Essa idéia de que é bom porque todo mundo ta dizendo que é ou porque passou no Fantástico, no Globo Repórter e até o programa do Jô... Tenho quase que alergia a essas opiniões unânimes. Lembro que devia ter uns 14 anos quando estreou Titanic e eu me recusava a assistir porque todo mundo dizia que era maravilho, que já tinha assistido 5 vezes, que eu não podia perder e blá, blá, blá... Criei abuso antecipado ao nome da Celine Dion e daquela música horrível (hoje eu digo que é horrível porque é mesmo). Não podia ouvir falar em Leonardo Di Caprio que me dava dor de dente. Vim assistir Titanic aos 21 e detestei... Talvez porque a época deu ter achado ele bom já tivesse passado, talvez porque meu senso crítico relacionado ao cinema já estava sendo beneficamente contaminado por influencias européias ou talvez porque o filme fosse mesmo uma droga, cheio de cenas apelativas, atuações forçadas e um final tão imprevisível quanto o da paixão de cristo. Ok, isso aqui nunca teve a intenção de se tornar uma critica ao ‘clássico’ meloso/pop/anos 90 e me perdoem os fãs da Kate Winslet, todo mundo tem um passado negro, mas procurem assistir O expresso de Marrakesh, ou Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança ou qualquer filme dela antes ou depois de Titanic, por favor.

Nossa, eu realmente me perco.
Mas eu pretendia falar de música, ó... tsc, tsc, tsc.
Bem, desde que me apresentaram a Amy Winehouse com a infeliz comparação à Billie Holiday que estragaram tudo. Se tivessem colocado o fone no meu ouvido e dito “Escuta isso aqui!” teria sido muito melhor.
Eu particularmente adoro compartilhar e indicar as coisas que descubro e gosto, mas procuro evitar análises, julgamentos ou comparações prévias. Da minha impressão eu procuro dizer apenas que “Tow curtindo” e mandar o conteúdo adiante.
O que acontece é que sou fã da Billie, adoro Jazz e Blues, então claro que eu já fui com ouvidos de crítica especialista, oclinhos na ponta do nariz a boquinha de nojo: não achei nada demais. Mas eu também detestava Caetano na infância e achei as músicas dos Los Hermanos continuação uma da outra quando escutei Ventura pela primeira vez. Em suma, a minha primeira impressão musical, definitivamente, não é a que fica. As coisas comigo tem que seguir todo um processo pra serem bem ou mal aceitas, mas a sorte é que eu estou aberta a uma segunda chance, mas tem que ser bem espontâneo, o mais casual possível. Daí que agora pouco meu deu vontade de tirar a cabeça da droga do relatório de estágio que eu preciso concluir em no máximo 24 horas e fui fazer uma prece ao São Youtube, padroeiro dos entediados da TV aberta e desprovidos da TV a cabo. Eficiente o santo viu! Fui direto ao nome da Amy e vou confessar o motivo: ouvi o nome dela aqui do meu quarto, pela TV, foi sim, e foi no Fantástico, foi... Enfim... Num é que eu fui ouvindo assim como quem num quer nada e fui gostando! Apois foi... Poucos clips, a maioria são fotos dela com a música de fundo. Evitei o material ao vivo (detesto). Encontrei até uma versão dela mais gordinha (super linda), cabelos lisos e sem laquê e nenhuma das inúmeras tatuagens nos braços. Olhar voltado pro alto, a cara de abuso e raiva tentando disfarçar a indisfarçável timidez... E comparei com as imagens que a TV não me deixa deixar de ver. Deu pena. Parece que sempre teremos que presenciar casos de pessoas que nasceram com um puta talento, mas não conseguem conduzir suas vidas de maneira equilibrada e terminam por jogar muita coisa fora. Não estou julgando, longe de mim. Se há uma coisa que sei bem é sobre o quanto é difícil conseguir equilíbrio quando se tem alma e instintos a nos torturar, a diferença é que eu não sou famosa, nem tenho talento brilhante pra nada e ainda não parti pras drogas pesadas, heheh...
Se para que ela tenha aquele olhar tão cúmplice e aquela voz tão dolorosa é necessário se perder assim eu não sei, mas no final de cada música não consigo deixar de sentir pena e uma leve revolta pelo fato de certas coisas não mudarem nunca, nunca.

Conferir:

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Meus não agradecimentos a Mariana por ter colocado os fones nos meus ouvidos e a Priscilla por falar na Amy compulsivamente... Brincadeira ;)
°

terça-feira, junho 17, 2008

Hay que enternecer, pero sin perder la dentadura jamás!


Três dias seguidos em casa e pronto; já troco o dia pela noite. Daí que as pessoas acham estranho e chato (e deve ser mesmo) o fato do celular ficar desligado por toda a manhã. Quem liga pra minha casa recebe da minha mãe a sonora noticia de que “ela está dormindo, vou acordar”.
- Dormindo a essa hora!? Tenha vergonha!
A essa altura se eu for dizer que fui dormir às 5h ou 6h da manhã vai soar como desculpa esfarrapada...
- Eu sou um vampiro, há há há...
Isso às vezes soa melhor.
Bem, as minhas aulas de lingüística aplicada e meu trabalho sobre blog fizeram com que eu passasse a dar ao meu próprio uma cara mais de diário. Enfim... Essa disciplina e a amaldiçoada da professora estão me dando um medo danado de reprovação. Nunca aconteceu isso em... todos os anos de faculdade. Nunca fiquei em 4ª prova e as reprovações que constam em meu triste currículo têm explicações bem plausíveis.
Eu só queria que a minha querida docente (¬¬) entendesse que a aula dela não me estimula e sinceramente, pra quem não tem mais esperanças sobre a educação elementar nos moldes em que se segue no Brasil, não há muito sentido estudar a aplicação de textos ao ensino de língua materna em sala de aula. Lindo! Admiro verdadeiramente quem crê e se dedica à educação, mas não possuo tal abnegação e realmente não quero possuir. Quero ter prazer no meu trabalho e a sala de aula me esgota, suga todas as minhas energias e não me retribui com nada que eu possa tirar proveito. É triste, mas é fato.
Meus trabalhos acadêmicos definitivamente estão se reproduzindo. Temo, qualquer hora dessas, encontrar no meu quarto alguma forma mutante fruto de uma fusão da lingüística com a história da língua portuguesa, meus post’s na net e os ofícios que tento digitar pra conseguir verba e finalmente conhecer São João del-Rei nas férias com o pessoal do curso de História (eu bem que mereço ir...)
Descobri hoje que meus planos de entrar como aluna especial da graduação em Ciências Sociais terão que ser adiados por um semestre. Isso mesmo! O novo e maravilhoso regulamento da minha universidade diz que o estudante não pode ingressar como aluno especial mesmo com todo o currículo da graduação anterior integralizado. Precisa ter o diploma e isso só lá pra outubro, novembro...
Muito produtivo um semestre inteiro em casa. Mais do que nunca preciso de um emprego.
Poucas palavras de uma ébria me fizeram muito bem agora de noite...
Ontem eu descobri que além do meu computador ter abortado o MSN ele também apagou todos os meus favoritos. Mas a vida é bela :D (¬¬)
Neste exato momento tento blogar e descubro que o site deve ter aproveitado a chuvinha e ido dormir, só pode.
Acho que vou fazer o mesmo.
04:12

quinta-feira, junho 12, 2008


Não há paixão que dure
Nem amor que cure
O meu vício por solidão.

segunda-feira, junho 09, 2008




Parece liberdade, parece fuga.
Parece doença e há quem diga que é cura.
Parece moda ou revanchismo.
Aceitação ou achismo?
Experimento ou encontro?
Perdição ou da partida o ponto?
Fim dos tempos ou retorno ao principio?
Precipício, ribanceira?
Fim da estrada, corredeira?
Ou bóia salva vidas pra tantas ditas que se perderam?
Perderam o paço, o tato, o juízo.
Perderam o tino e o gosto pela solidão.
Agarro o toque, o abraço, o amasso.
O gosto no que faço.
Eu te caço por aqui e guardo
Somente a água que não quiser me afogar.
Pra quem não tem o que procura
E acha que dura a vida um breve instante...
Avante à sua sede de carícia
Na pressa da vida não se reconhece o amante.
E é diante dessa dúvida que se perde, me perco,
Encontro, acho, a fonte.

Carolina Miquelassi

sexta-feira, junho 06, 2008

"... hoje eu tenho cem anos e meu coração bate como um pandeiro num samba dobrado"



As músicas do Zeca são quase sempre o que mais se aproxima da perfeição... Isso imaginando o que seja essa tal de perfeição... (Não tem jeito, tudo que penso, faço, escrevo, nego, calo... Tudo lembra você e nossas conversas... Você é o único que tem conseguido me fazer chorar só por existir, mesmo lá longe... E se depender de mim cada vez mais longe... Só eu sei por que) Mas essa letra hoje ta mais do que tudo, mais do que em tantos outros momentos... Até poucos dias estar sozinha era tudo que me dava prazer, hoje já não sei. Não sou de companhia, não sei ser, nunca soube e tenho uma profunda preguiça de aprender e tentar. Não quero que ninguém se aproxime, quero! Desejo, anseio, sonho, busco, desisto. Escrevo, envio, recebo, apago, não respondo. Não quero entender, analiso! Quero ir, combino, chamo, não vou, tenho dor de cabeça, cansaço, sono, tristeza. Aaaaaaahhhhh!
Alguma garrafa, por favor, um pedido de socorro que me salve!
Eu preciso amanhecer.

°
Respondendo ao a.
A gente põe a nossa solidão com fantasia de carnaval a desfilar passos coreografados pelas ruas de papel e chama isso de poesia.

°
"Não é que eu ache que o mundo tenha salvação

Mas como diria o intrépido cowboy, fitando o bandido indócil
A alma é o segredo, a alma é o segredo
A alma é o segredo do negócio"

sexta-feira, maio 30, 2008

Muro


Preciso aprender a fazer versos de pedra
E com cada um deles construir o meu muro.
Por trás dele estarei sentada, na grama verde
Olhos por cima dos óculos de sol.
O quem vem de baixo... Sim, também atinge.

Carolina Miquelassi

domingo, maio 25, 2008

Do cinza às cores fortes


No momento algumas poucas e basilares coisas me atormentam:
O aniversário que já aponta ali na esquina. Há tão pouco tempo dezoito, daqui a três anos trinta. Nossa..
A formatura que está cada vez mais certa e inevitável. Ui! Sempre tive um medo terrível de crescer e querendo ou não, com a minha idade e um diploma... Vou nem perguntar o que fazer com o canudo pra não ouvir desaforo.
Ter que ir pra sala de aula pra poder pagar minhas contas. Eu definitivamente não quero fazer isso.
Quanto à presença da minha mãe na minha vida... Nem quero falar muito. Ela é meu melhor lugar, o único e verdadeiro amor abnegado que terei na minha vida. Não que eu ache que todo amor deva ser abnegado... É que eu ando acreditando que essa palavra ‘amor’ só se materializa no tocante a essa relação entre mãe e filho, o resto é balela.
Agora não é um medo, mas o maior dos desejos; quero conhecer o outro lado desse amor. Um misto de vontade avassaladora e medo paralisante... Quem sabe daqui pros trinta...

Carolina Miquelassi

sábado, maio 17, 2008

Terra em que muito se pisa nenhuma grama nasce


Hoje eu troquei de perfume e muitas coisas em volta pareceram-me diferentes.
“Outro lar ao acordar de manhã”
Preciso despir-me.
Despir-me dessas lembranças ainda quentes, mas azedas.
Despir-me da minha pele, da sua pele ainda na minha.
Despir-me das pretensões literárias.
“Nunca jogue o que faz pra posteridade” ouvi certa vez.
Não sei o que se deu em tudo nessas últimas 48 horas, mas algo importante aconteceu aqui e isso não é só bipolaridade.
Adorei revisitar sabores ontem a noite jantando sushi com Pri e Mari. Foram boas e aflitivas as horas que passamos juntas e sem maiores detalhes quanto a isso.
Mariana me disse uma coisa na qual eu já havia pensado e de certa forma concordo; eu vivo substituindo uma pessoa por outra dentro de mim. Cada uma das pessoas com quem me envolvi nos últimos ‘sei lá quantos anos’ foi um tapa buraco de outra. Talvez por isso eu tenha me agarrado de tal maneira a cada uma delas, querendo fazer delas minha reta de chegada, o fim de uma corrida que eu não tinha consciência, até então, de estar disputando... E disputava comigo mesma. E daí as mesmas perguntas retornaram a minha cabeça; Será que eu gostei realmente de cada um desses homens que julguei terem sido minhas grandes paixões? Será que eu já gostei verdadeiramente de alguém? Será que a minha capacidade de dizer adeus pra sempre a algumas pessoas não é exatamente um sinal de que eu tenha percebido que um encantamento que eu sentia por elas acabara e quem sem isso nada restava?
Tantas outras perguntas...
É difícil admitir, mas (para uma pessoa considerada tão passional) acho que eu nunca amei alguém. Certamente por isso eu não acredite no amor da forma como as pessoas dizem sentir ou colocam como possível. Pensar nisso mexe com muitas das minhas outras descrenças. Mas isso é tema pra mais de dez anos de terapia intensa...
Estava escrevendo até agora dentro do ônibus. Não consegui resistir e ao passar pelo shopping decidi descer e comprar sushi pro meu almoço. Os rapazes ainda estão preparando e vai demorar uns vinte minutos. Agora posso me sentar em uma das mesas da praça de alimentação (sempre dou preferência as do sofá) e continuar a escrever sem os solavancos do ônibus. Mas parece incrível – assim como em tudo na minha vida – quando algo se mostra certo, possível, definido... Passo a não querer mais. Some de mim o interesse e já estou pensando em dar uma volta no supermercado do piso inferior.
Ai ai...
Só sei de umas poucas coisas; tudo parece estar conquistado uma nova ordem aqui dentro (tanto no que sinto quanto no que penso) não sei quanto tempo terei antes que apareça o próximo vendaval (eles sempre vêem depois da calma), mas eu posso dizer que estou me sentindo muito bem agora.

Carolina Miquelassi

sexta-feira, maio 16, 2008

acabo de retroceder cinco meses agora
eu não quero
mais
você [aqui]

"eu não sei como retirar tanta agonia de dentro de mim
acabo de retroceder cinco meses agora
em poucos minutos de conversa... nem preciso dizer com quem
preciso de um exorcismo, urgente!
o que é isso? o que pode ser isso?
eu estava tão bem inerte, dormindo, em coma dentro de um bloco de gelo.
como eu faço pra fechar a derradeira porta, sem Adeus e não voltar mais lá e nem deixar pistas para que cheguem até mim?
eu precisava agora de alguém que soubesse mensurar um pouco disso que estou sentindo.
eu estava a esquecer desse gosto salgado na minha boca..."

°
do texto que mandei há pouco para a Bolinho de Arroz.
isso aqui tá virando Diário e a culpa é das aulas de Lingüística Aplicada...

quarta-feira, maio 14, 2008


“porque aquele que eu mais amo dormia a meu lado sob a mesma manta na noite fria. na quietude daquele luar de outono o seu rosto estava inclinado para mim e o seu braço repousava levemente sobre o meu peito - e nessa noite eu fui feliz.”
(Walt Whitman)

domingo, maio 11, 2008



"alguns blogs que leio me deixam meio desanimada (despeitada seria a palavra certa) quanto a minha escrita pessoal.
pela simples razão deu perceber que algumas pessoas, conhecidas ou não, sempre conseguirão falar melhor do que eu sobre as coisas que sinto.
me cansa a minha monotematicidade. realmente, pareço não ter mais do que um modo de olhar as coisas a minha volta ou não ter a capacidade de descrever as coisas de forma eficiente.
isso acontece quando leio o blog de Adélia (e eu já nem falo mais isso pra ela, porque tenho receio de ser inconveniente) e isso aconteceu hoje ao fazer uma das costumeiras buscas de imagem para postar no fotolog e encontrei um blog que tive que ler de cabo a rabo.
a menina foi me deixando profundamente emocionada a cada post...

eu definitivamente sou uma amadora de mim mesma.
não sei escrever a não ser sobre minhas emoções e como eu estou fazendo até despacho na esquina pra não sentir mais nada nesse velho e maltrapilho peito eu deveria mesmo era deixar essa coisa de escrever pra quem realmente o sabe e faz com plena competência.

mas eu sou tão teimosa ou sei lá bem o quê que certamente ainda voltarei por aqui pra postar mais uma das percepções repetitivas e mal redigidas da minha realidade suuper interessante."


Carolina Miquelassi

sábado, maio 10, 2008


Baby, baby, me acorda com pancadas no coração.
Forçando a maçaneta da vontade e quase dando chutes na madeira do tempo.
Baby, baby, me deixe dormir!
Não me acorde desse sono de dormência.
Não me faça lembrar teu abraço... Que eu não posso, não passo sem... Ou eu pego já já um avião.

Carolina Miquelassi
agorinha...

quinta-feira, maio 08, 2008


Dançando frevo no fio da navalha... Pensava nisso e acreditava que alguém já devia ter se sentido assim ou parecido. Balançava de um lado para o outro no banco do ônibus. Seus pensamentos seguiam para um rumo incerto embarcados em pequenos botes/bolinhas de sabão. Um enxame de perfumes lhe atacava sensações vermelhas e inchadas pela alma: alfazema, limão, bala de coco... Como alguém podia usar um perfume que lembrava bala de coco? Uma música quebra sua concentração, tão fina quanto casca de ovo... Branda, brincava a sua volta uma ciranda. Era a melodia de uma saudade que dialogava com a solidão, fazendo-lhe companhia... Menta e monóxido de carbono. Não buscava fazer nenhum relato mental das impressões sobre as últimas pancadas na porta após as onze da noite... Apenas reforçou o trinco, colocou mais um grosso cadeado e todas as noites antes de dormir encostava o espaldar de uma pesada cadeira na maçaneta da porta. Quando o problema se apresentava por demais complicado ou sem solução óbvia e aparente ela procurava não perder mais tempo pensando. Criar rugas no rosto antes dos trinta... Já lhe bastava saber que um dia elas seriam inevitáveis. Mas havia feito a descoberta de que as rugas n’alma não eram. Deveriam ser como rugas n’água, durando apenas o tempo necessário para a pedra, folha ou coisa qualquer mergulhar até o fundo e os movimentos da física e todas aquelas coisas das quais as aulas da matéria não lhe fizeram aprender fossem anulados. Mas irritantemente lembrou que as folhas bóiam e o vento sempre dá o ar da graça... Sua mais nova profissão: controladora de tempestades e naufrágios.

“Anda, se manda pro tempo não te pegar, pro tempo não te pegar”
[Mombojó]

Carolina Miquelassi
O8.O5.O8_11:OO

segunda-feira, maio 05, 2008

... fragmentos de um sonho ou realidade ...



"Sinto-me dentro de um aquário.
Quando falo ou me movimento é como se tudo estivesse em câmera lenta e rodeada de um líquido amniótico que, diferentemente daquele de há mais de 26 anos, não dá sensação alguma de segurança. Parece-me que posso ser expelida num parto doloridíssimo a qualquer momento, saindo da cama de volta pra minha vida de sempre.
Se não fossem os compromissos eu ia até gostar de passar umas duas semanas em casa curtindo essa doença que eu nem sei qual é... Depressão? Até parece, mas não estou com aquela tristeza e desesperança. Estranho... Eu não sinto nada. Tá bom aqui. Num tô sentindo falta de nada agora... Agora...
O gato subiu na cama e eu nem percebi quando. Acordo e ele está deitado, espachorrado aos meus pés... Folgado. Não consigo alcançar. Me deu dó de empurrá-lo com os pés. Deixo-o continuar dormindo lá. Só falta babar. Quando penso nisso percebo que eu mesma babava na fronha enquanto completava 15 horas deitada em minha cama. Entre o dorme e acorda. Alguns sonhos tão insólitos, alguns desejos tão escondidos de mim que realizei dormindo.
Estou empapada de suor. A febre cedeu.
Se eu pudesse tomar um banho frio sem ter que me levantar...
Não sinto fome, só enjôo.
Começa a chuva.
Removam o teto, por favor. Preciso urgentemente de um banho de céu."

Carolina Miquelassi

sábado, abril 19, 2008

"Eu tô curando a ferida"


Desfiam em seus cabelos os minutos, dias e luas do amado a não ver e não querer o beijo e o desejo sorvidos em doses de inconstância e certezas absurdas. Ela planta os pés na graminha e passa longos minutos a olhar as negras formigas a passearem-lhe pelos pés pálidos e de dedos tortos. As picadas já não lhe assustam, uma dor tão conhecida, mesmo assim ela as afasta antes que lhe apliquem o ácido. Não precisa arriscar mais uma vez.



°
Perdi o hábito de dialogar comigo irresponsavelmente e sem compromisso lírico.
Devo ter acreditado nos comentários quanto ao meu material escrito e tomei ares de intelectual pedante, hihihi
Minhas palavras norteiam-me silenciosamente através dos últimos dias e fatos.
Enquanto busco calar por dentro os dedos conjuntamente se negam a procriar.
Não determino datas ou rumos para tantas fugas.
Obtenho os silêncios e guardo em recipiente de vidro fosco minhas últimas tentativas de chorar.
Nada é terminantemente findo para que se façam malas com os cachecóis e grossas mantas de lã do último inverno.
Por vezes uma brisa ou réstia de sol atinge-me o rosto e fazem parecer que a primavera pode aparecer em qualquer estação, até na de trem.
Nada é perene.


Carolina Miquelassi

19.O4_14:58

sexta-feira, março 28, 2008


Descubro que não há lucros
e que há mais ilusões do que pombos na praça.

Muitas folhas de papel rasgadas,
tentativas de ser o que eu não digo.
E eu tanto digo o que sou sem conseguir...
Perdendo entre as falas mudas do dia
os poemas que não cabem nos papéis.
Respirações.
Unhas roídas.
Goelas secas.
Gotas de chuva, saliva ou sangue.

Imprimir no nada o meu verbo perdido.

Vamos falar com a pele ardida,
colar a palavra nas bocas unidas.
Viagem de dedos e tatos e unhas e marcas.

Impresso só o carinho.
Nada a mais.
Nada por dentro.
Como mostrar?
Como gravar?
Como esquecer?

Você volta que eu prossigo.
E digo e desdigo e repito e até grito...
O que for mais bonito que o beijo pedido,
perdido, o cafuné, o tesão.

Esse teu olho tão de perto
abrasa, acorda, arranca meu afeto.

sábado, março 15, 2008

Ela decidiu que, por enquanto, nunca mais vai gostar de alguém!

"Era como uma ausência quase que completa de sensações. Era enfim a inércia sensorial que tanto desejou. Mas porque então, nem mesmo assim, sentia-se bem? Será que nada seria capaz de lhe devolver a tranqüilidade?... Julgando saber o que fosse tranqüilidade.
Tentava não sentir tanta falta dos amigos e das pessoas que outrora desejava com doentia necessidade. Não que as tivesse esquecido ou não sentisse mais falta, só tentava não se importar. A precisão daquelas companhias a fazia possuidora de uma dor e uma profunda solidão por acreditar que seus minutos consigo mesma não importavam para ninguém, nem para si.
Por alguns dias conseguiu não ligar pra nada. Não ter as velhas necessidades, não esperar os contatos e telefonemas, passar as tardes sozinha e tudo isso quase sem chorar. No entanto seu processo de embrutecimento não estava concluído e já começava a notar algumas falhas de planejamento estrutural para executá-lo totalmente. A poesia (se é que havia mesmo existido) secara-lhe. As palavras sumiam antes de calarem-se por dentro. Sequer a cutucavam, empurrando-a para fora da cama de madrugada, como outrora. A madrugada! Seria pelo fato de agora estar tão exausta já no meio de seus dias que mal conseguia esperar pelo contato do corpo estendido e tenso no velho colchão de molas? Definitivamente faltava-lhe aquele ócio produtivo de que tanto falavam os mestres de literatura. O ócio do qual ela estava a fugir. Fugir de pensar para não sentir, não sentir para não pensar e com tudo isso não acontecendo ela também não escrevia mais.
Esse era o plano perfeito para não sofrer. Não sentir, não pensar, não escrever, não criar mais laços e não precisar mais de ninguém. Claramente que existia uma falha de execução nisso tudo. A menos que se isolasse por completo e isso não era ao menos provável, quanto mais possível de ser realizado no momento.
Estava habituada a gostar muito de algumas pessoas por algum tempo e depois esquecê-las, não se importando mais. Sempre fora assim e isso há tempos já havia deixado de incomodar. Não lutava mais contra a maneira com a qual os sentimentos se davam dentro dela. Acontece que também adquirira o terrível habito de se pensar. Se definir, ao menos um pouco, para poder ter uma breve noção não de quem era, mas de quem estava a ser naquele instante da definição. Ajudava um pouco a não se surpreender tanto com os julgamentos alheios, sempre tão diversos dos que se fazia. No fundo sempre soube que não suportava ver ninguém partir e sendo assim, algo dentro dela se despedia dos afetos antes que eles virassem-lhe as costas, algumas vezes sem sequer dizerem adeus. Foram tantas partidas, tantas saudades, tanta dor a lhe cortar a alma em tão finas postas que sentia que não podia mais. Via-se no limite, embora a realidade lhe desanimasse quanto a permanecer só, sabia que já não se tratava de mera escolha.
Tudo havia se agravado com um lampejo de lucidez que a fez deixar de crer nos mitos da infância. Descobriu só depois dos 25 que os romances eram coisa do cinema e dos livros. Foram muitas revelações em tão pouco tempo e sua sensibilidade protuberante não deixava nenhuma reação por menos. Não cria mais em muitas palavras. Percebia uma intenção oculta e controladora por trás de toda e qualquer definição de sentimento. Olhava para as pessoas a sua volta e notava claramente que ninguém partilhava dessas ‘revelações’. Todos ainda crédulos e felizes (ou não) e se não ao menos com a esperança dada pelas ilusões (essas sim compartilhadas). Se dissesse a eles porque tantos enlouqueceram e deram cabo de sua existência seria certamente chamada de louca e depressiva... Nenhuma originalidade nas alcunhas a ela dirigidas. Ria-se ao ver os outros julgando eternos seus instantes, mas após algum tempo já não havia graça. Nunca houve graça. Isso também era ilusão. Algo sempre a tocava por mais que se esquivasse. E as lágrimas derretiam sua convicção inabalável de não ter convicções e de não se deixar abalar. Nada mais a surpreendia. Nem as saudades, nem as paixões, nem as surpresas, nem os nadas da vida."

Carolina Miquelassi
02:08_15.03

terça-feira, fevereiro 26, 2008




O verbo anda mudo
E nesse mundo cheio
Eu tenho o meio certo
De te trazer pra perto.
Mas mudo e meio
Permaneço cheio
Desse meu deserto.
Quando o verbo grita
Espia em medo
O meio copo
De saudades cheio.
Entornado ao seio
Nem mais cheio nem meio.
Oco e tanto.
Carolina Miquelassi

sábado, fevereiro 09, 2008

"... molha meu olho que não vê"

Miró


Sinto-me tão preza dos meus sentimentos
e eles tão certos e fincados como Baobás enraizados em minha lucidez.
Libertamente presa às coisas que se mostram tão certas embora erradas.
Comprometida com certezas que não busco ter.
Tocada por mãos distantes e internas.
Beijada pelas lembranças dos meus lábios em sua boca.
Acesa por um sopro de pecado tão puro e natural.
Navegada por seus dedos/barcos atracados aos meus seios.
Inundada por seu mar/saliva/gozo, espuma doce e quente.
Corrompida por uma saudade oceânica e revoltosa.
Espancada por ondas monumentais de ausência e procura.
Penetrada por um sol que não me aquece.
Contemplada por uma lua que cotidianamente me abandona nua.

Carolina Miquelassi
13.12 / 00:33

sábado, janeiro 26, 2008




Enlouquece-lhe o que é efêmero [enlouquecida em ausência
inunda-se do instante que já não é [inundada em horas
abandona-se na saudade que não é mais [abandonada em tentativas
essa saudade que não é, que se vai, que não a pertence e que só lhe atravessa, ultrapassa e abandona.
Sozinha de saudade. Sozinha de paixão. Sozinha de futuro. Sozinha de presente. Sozinha de alma. Sozinha de passos. Sozinha de vontades. Sozinha de recomeços.

[O chá é gelado e a dor se espalha cintura abaixo.
Engole indiferente o que a boca já sentiu amargo]

Tudo soa como mesmo, como repetição.
Tudo soa como o mesmo velho sino que badala por costume ou profissão.
A palavra escrita, a ligação, a voz ao telefone, o mesmo som.
É muito, é suficiente e sempre faz falta.
É a outra volta no ponteiro dos minutos, a hora inteira, a madrugada.

A falta da palavra efetiva.
A falta da palavra.
A falta.
A falta que espessa o ar.
A falta que alonga as unhas.
A falta que finda o dia.

Momentaneamente, ela escreve cartas que não vai endereçar.
Pontualmente, ela perde o sono e põe a culpa no calor.
Ela respira, sente saudades e chora.
Ela enxuga lágrimas, fecha as janelas e acende a luz do amanhã.

Carolina Miquelassi

21.01_23:09

sábado, janeiro 19, 2008


"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."
Clarice Lispector
...
A vida, em todos os seus aspectos, tem me enfadado em demasia.
É um sono tão poderoso que cai sobre mim, me domina inteira.
Eu sequer desejo reagir a esse torpor.
Não espero que nada de bom aconteça, nenhuma surpresa virá.
Nenhuma pessoa nova, nenhuma viagem ou premio acumulado da loteria.
Nenhuma pipa ou bola de vizinho cairá no meu quintal.
Nenhuma janela saltará na minha tela trazendo alegria virtual.
Nenhuma notícia que surpreenda ou mude minha existência.
Nenhum milagre transformador se dará dentro de mim.
Não, não há esperanças aqui.
O ano é novo e tudo continua igualmente antigo.

.
Carolina Miquelassi
às zero horas e 20 minutos do dia 17 de janeiro do ano de 2008

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Olha as fotos do nosso amor!


Tantos "amores maiores que tudo", tão instantâneos e alarmantes.
Tantos "te amo mais que minha vida" de pessoas que se conhecem há apenas dois meses.
Tantos homens e mulheres uns das vidas dos outros que sequer se olharam direito nos olhos por pura falta de tempo...
Sou eu que enlouqueço de despeito e amargura ou as relações estão cada vez mais vazias?
Orkut é um closer – perto demais... Algumas pessoas nós nunca vimos, difícil avaliar, mas outras conhecemos ou um ou outro membro do casal de seres que se tornou um só... (detesto essa idéia de perda da individualidade...) da certa desconfiança de tamanha exposição e alarde desses relacionamentos.
Belas fotos maquiadas, descrições com juras eternas de sentimentos infalíveis e... Perto demais é que se sabe.
Se passamos mais de um mês sem olhar direito o ORKUT dos amigos podemos tomar grandes sustos. Encontrar seu amigo de pose sorridente ao lado de uma moça que não era a namorada dele há alguns dias... Embora o rodapé da foto parecesse ser o mesmo.
Quando se está perto demais de alguns desses casais ou quando se presencia ou vive estórias que te negam toda aquela verdade de amor que nos mostram álbuns, scrap com coraçõezinhos e depoimentos carregados de poesias copiadas com a ajuda do Google, o que pensar?
Há poucos dias uma amiga me mostrou indignada o perfil do ORKUT de um carinha.
Bonitão e no status do perfil, que não possui quase nenhum detalhe, estava muito bem legível ‘casado/a’.
O rapaz não era casado mesmo, mas esta é a forma como muitas pessoas colocam quando julgam ou querem demonstrar que seus relacionamentos são mesmo sérios.
Fui ao álbum (enquanto perguntava pra amiga de quem se tratava), lá havia poucas fotos e a última me chamou a atenção. A foto era absolutamente linda e eu juro que me comovi com a descrição do rodapé que, apesar de manjada e clichê, fez meu coração romântico se alegrar por ver um rapaz tão jovem apaixonado daquela forma. Os dois eram lindos e estavam sublimes, perfeitos, de dar inveja a qualquer um. Continuei ao MSN perguntando a minha amiga de quem se tratava, se era algum amigo ou amiga dela...
Ela me contou que tinha ido há uma boatezinha universitária - bem conhecida da cidade - na noite anterior e que havia sido paquerada por um rapaz durante boa parte da noite e que, com sua insistência e charme, acabou a convencendo em ‘ficarem’. Pois bem, beijinhos e detalhes aos quais não me prenderei a parte, o carinha pediu o telefone.
- Dou não.
- Pois então pega o meu.
Depois de mais um pouco de beijinhos etílicos ela acabou dando... O telefone, calma.
No dia seguinte, em frente ao pc, nessas férias animadérrimas daqui de Natal, ela fuçou (e quem procura acha) e encontrou o ORKUT do tal fulano (que por acaso havia dito que não tinha).
Bom, o resto já se sabe. O moço tinha namorada, uma linda (mas linda mesmo) garota loira de 19 anos, estudante de Direito de uma dessas 439 faculdades particulares existente na nossa pequena cidade. Adentrando às páginas do perfil encontramos muitos scraps apaixonados e depoimentos que me deixaram de queixo caído. Fui ao perfil dela também, tamanha a curiosidade e falta de algo melhor pra fazer que me moviam naquele instante. E o que encontramos lá foi só uma extensão do já visto só que com um pouco mais de cor de rosa e purpurina.
Eu fiquei mesmo muito enraivecida e nem foi pela minha amiga que só tinha ficado com o carinha uma vez. Eu fiquei pensando naquela menina de 19 anos. Quando a realidade que tanto eu quanto minha amiga já sentimos a nos amargar boca e coração respingasse também na sua alegria de amor fotogênico.

Eu já namorei um mentiroso compulsivo, portanto é compreensível minha descrença quase que absoluta nos seres do sexo masculino. O que me da raiva é que até as criaturas que não fazem parte da minha vida insistem em contribuir com a minha falta de fé nos relacionamentos verdadeiros.
Sei que eu ainda carrego no coração uns pacotes da pipoca açucarada das paixões literárias e das comédias românticas de Hollywood, mas sacanagem é sacanagem em qualquer lugar e a qualquer hora.
Olho também pras carinhas de criança que figuram estas ‘histórias de amor’ e me pergunto se tudo não passa do exagero e irresponsabilidade normais da idade. Afinal, eu me sinto uma velha caquética a cada dia que passa com tantas criaturas de 19 e 20 anos a minha volta...
Eu ainda quero acreditar em relacionamentos verdadeiros. Sei que pra isso precisamos de pessoas maduras, mas como será que essas pessoas vão chegar à minha idade com tanta superficialidade envolvendo seus sentimentos?
Espero que menos feridas que eu.
.
Carolina Miquelassi

4 de janeiro de 2OO8 às 04:18

terça-feira, dezembro 25, 2007


Eu não sei ser só.
Meu coração não sabe estar vazio.
Também não consigo ser de companhia.
Quando junto, desejo estar sozinha.
Não sei ter paz, mas não declaro guerra.
Não sei amar, mas não carrego ódio.
Falta-me operância para a vida.
Falta-me uma alegria que sequer perdi.
Falta-me a paz para amar sem dor.
Falta-me o sol para amar sem amargura.
Falta-me a chuva para amar sem pena.
Falta-me outra vida e mais tempo.
Falta-me não ser mais quem sou agora.
Falta-me um quê que a vida não me deu.

Carolina Miquelassi
[25.12 / 19:54]
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“...não estou postando esse texto aqui, estou enterrando. Preciso que todo este sentimento desapareça”

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Nunca há uma história de amor para ti.
Seus finais são sempre Casablanca
Nos quais você é Hunfrey Bogart sem cigarros pra consolar.
Não há lenço nas despedidas, apenas um mar de gotas salgadas.
O que amas não é teu, o que queres partiu... Em dois pedaços inteiros.
Nada é para ti.
Não peças amor se é delito querer demais.
Amor não há, amor não há.
É fruta do pé vizinho
Não podes provar.
Destino de Camélia, de dama da paixão
Não desejes nada nobre
Tua nobreza é o linho
Não és Simone de Beauvoir.
Mereces observar os destinos dos amantes
E ornar a vaidade dos homens com fantasias
Mas amor não é para ti, cretina!
Amor não há, amor não há.
Ocupas os sonhos mais lascivos dos homens, mas não seus corações.
És digna dos desejos dos homens, mas não de seus amores.
És merecedora das palavras dos homens, mas não de desfrutar de seu convívio mais profundo.
A você são voltados os beijos e os toques dos homens, mas não seus planos e seus futuros.
És colchão e prato pras fomes dos homens, mas nenhum deles (se)quer (pode) saciar tua verdadeira sede.
[Carolina Miquelassi]
[21.12 / 06.23]
... "Comecei esse texto há mais de 3 meses e terminei hoje, em meio a uma crise de TPM violentíssima. Não quero me sentir assim novamente, portanto vamos encarar isso tudo como uma obra ficcional em que qualquer semelhança com fatos reais seja mera coincidência." ;)

quarta-feira, dezembro 19, 2007

A ferida e o dedo


A ferida por vezes lateja,
Por vezes coça,
Por vezes inflama.

A ferida está em relevo
E se não a vejo
O dedo sente.

A ferida em dias de chuva
Alerta a chegada dos pingos
Avermelhadamente.

A ferida repuxa, descasca
E cicatrizada
Ainda é ferida viva.

Todo dedo quer uma ferida.
E ela do dedo se esquiva.
Ela do dedo tem medo.


[Carolina Miquelassi]
[19.12 / 04:35]

As vezes eu escrevo cada coisa besta...

quinta-feira, dezembro 06, 2007


Homem-anjo de fogo
Em toda a sua andança
Não esqueça a quebrança

Que sente este coração distante

Inoperante querer, mitigado
Anestesiante passagem das horas
Tantas horas que se fizeram vida
E da vida não posso esquecer

Homem-anjo de fogo
Fez-me
carvão incandescente
Fez-me cantante e demente
Mas nunca na vida infeliz

Ao puxar-me brasa
Não havia lugar para arder
Não havia tempo para amar
Mas havia pra não morrer

Homem-anjo de fogo e sangue
Colhe-me o que resta de amor
E sempre há de restar amor
Homem-anjo de fogo e sangue


[Carolina Miquelassi]
[06.11 / 16:01]

domingo, dezembro 02, 2007



Versos postumamente lúbricos.

Quero te dar meu corpo em negros lençóis azuis
de rubro cetim macio e brilhante.
Dar-te corpo apenas, nada mais.
Porque nada mais de mim necessitas.

Palmilhando cada poro teu
e deles fazer sangrar teu suor sacrifício.
Cada milímetro de pele memorizado.
Arrancar-te pequenos vestígios,
guardados sob as unhas.

Toda curva e ondulação, protuberância,
gravadas na memória táctil de minha língua.
E não saber mais onde finda minhas mãos
e principia teus cabelos.

Nos teus joelhos pousar um beijo
avançando longa e lentamente...
Doloroso prazer causar-te aos meus lábios
em que língua e leite não se separem.

Na garganta deixar brotar rouco
o som da fonte desse mistério.
E ver que o tudo é sempre tão pouco
sem alma, o teu amor estéril.


Carolina Miquelassi

...

abstrair vídeo, ouvir música
http://br.youtube.com/watch?v=KDf4Pnw0ngQ&feature=related

segunda-feira, novembro 19, 2007

°entre a fogueira e o mar°


Entre tantos sentimentos errados
que eu tenho que sufocar.
Quanto de mim se perde?
Quanto de mim restará?
Entre tantos conflitos armados
que tenho no coração.
Quanto de mim se perde?
Quanto de mim quer se achar?
Entre tanto azul e arame farpado
que o vôo não sabe a direção.
Quanto de mim se perde?
Quanto de mim voltará?

Entre a fogueira e o mar.
Entre arder e afogar.
Entre perder e deixar.
Não te sintas seguro no amor,
ele é afogador,
afaga todas as ilusões,
afoga todo o teu calor.


[Carolina Miquelassi]
[07-18.11 / 21:13]

domingo, novembro 11, 2007

enforquemos o cupido.


sou eu que penso,
pendo
e mudo de idéia
quantas vezes for possível... e um pouco mais

pode ser que eu nunca saiba pra onde
pode ser que eu nunca queira ir muito longe
não vou querer pra amanhã o que quero hoje.
quero o agora, este minuto que não responde.

daí que ninguém me acompanha.
daí que ninguém permanece.
porque a minha forma de viver
ou cessa de querer ou se esquece.

[Carolina Miquelassi]
[06-11.11 / 23:10]

.
.

"Tu e esse teu jeito de ser tudo"

segunda-feira, outubro 08, 2007

Quando a gente acha que não sabe mais pra onde ir deve vir pra dentro!
=*

domingo, outubro 07, 2007


É inútil querer reter nas mãos o que só o coração comporta.

Vou mudar
e mudar novamente
e mais uma vez...
Até enquanto eu puder,
até não ter mais poeira nos olhos,
até o velhinho na esquina ficar com a barba azul,
até meus peixinhos nadarem em cima da minha barriga

Não me faça perguntas!
Já disse; em mim não há nenhuma convicção!
Hoje quero, amanhã também (ou não)...
Não sou nada por muito tempo,
nem sempre consigo permanecer
ao mesmo tempo tenho tudo em mim
... guardado, num frasco de vidro marrom,
pílulas pra ficar acordado... (às vezes pra dormir)


.......................................................................................................

"— Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes
Que um outro, só metade, quer passar
Em miragens de falsos horizontes —
Um outro que eu não posso acorrentar..."


[Mario de Sá Carneiro]
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"eu venho importunando alguém pelas madrugadas solitárias
que já não são mais tão solitárias nem vazias, apenas aflitivas...
meu cérebro coracional me diz que não devo ter medo, muito menos
me culpar, mas algo chamado sensatez me manda ter vergonha na cara
e procurar algo de mais utilidade pra fazer...
- É útil sentatez!
- É errado, sua louca!
- É um erro louco... Paixão é arte e arte não precisa ser útil!
- ...
- É isso! E tenho dito! Vá dormir consciência falida!
- ..."

terça-feira, outubro 02, 2007


Não encoste sua palavra em mim... A pele queima.
Não imprima seu verbo aqui... A alma geme.
Não toque firme meu desejo... A paixão começa.
Não explore meus silêncios... A boca delira.
Não aqueça meu ventre em profusão... O rumor emana.
Não transpareça minha cor... As mãos aguardam.
Não violente minhas saudades...
.
Agora é tarde, porque todos os meus pedidos foram negados no momento errado...
Eu sempre andei pelos caminhos errados...
Eu sempre cheguei atrasada em todos os lugares...
Eu sempre enxerguei muito tempo depois de ter visto...
.
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"Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes
Jamais se detém Kronos, cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo."

[Sophia de Mello Breyner Andresen]