Danae

Danae
Klimt, Gustav

segunda-feira, setembro 01, 2008

Nada é belo na falta de amor.



quem pudesse ouvir os silvos de dor daquela mulher na mais alta e escura madrugada de sua vida, jamais compreenderia como se plantara em seu peito, alma e corpo tamanha dor e aflição. Roxa de todos os sentimentos podres e carnais, amarela de toda sua própria e máxima culpa, não sabia pra onde direcionar sua mente, alma ou coração. Não os julgava mais possuir, não sabia mais o significado de nenhum verbo que empregava, muito menos dos tempos que lhe consumiam em buscas de fantasmas antigos e novos, ainda frescos da mais maldosa vida. Quem pudesse sentir o calor das lágrimas daquela mulher que não sentia mais nada e estava muito bem nisso, mas que se viu sem saber como por onde ter deixado entrar um invasor sorrateiro e pueril nas suas vestes mais intimas e perfumadas... não saberia o que lhe dizer. Ninguém poderia lhe ofertar um sopro de conforto que bastasse para lhe tirar a vida tão dolorosa a qual tinha regressado sem se dar conta, até então. Poderia voltar? Se perguntou tantas vezes. Tantas e tantas até seus lábios murcharem de tão frios e ressecados, gotas de sangue escorrendo pelo queixo, empapando a camisa. Todos os líquidos dolorosos e medonhos de seu corpo. Queria, naquele mísero instante, derreter enquanto queimava e tornar doce qualquer mulher que pudesse pensar ou sonhar em ter a dor de uma vida perdida por paixões malfadas e patéticas, pobres de tudo que poderia ter, podres da raiz à folha última. Sem lágrimas, sem sangue, ela já não é. Verbo nenhum poderia dizer aquela pasta de ossos e carne vazios de vida e brilho. É essa vela na ventania toda a luz que há. Nada. O problema é tudo que nada.

Carolina Miquelassi

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http://br.youtube.com/watch?v=wW9JM49CqmU&feature=related

Um comentário:

Delia disse...

A beleza das palavras adornam as dores mais profundas, as fazem belas.
Essas palavras, suas palavras, conduzem os infortúnios em algo mais que humano, em algo que se mostra expressão viva(dor) e pura arte.
Lindo, como sempre.
Triste, sofrido, mas, lindo.