Danae

Danae
Klimt, Gustav

quarta-feira, agosto 06, 2008

"Ainda somos os mesmos e vivemos..."


Pelega. Durante alguns momentos da tarde de ontem, pela primeira vez na vida, me senti uma pelega. Tive contato com o termo assim que entrei no Movimento Estudantil, há quatro anos. No principio era algo tão abstrato que eu não conseguia conceber: pessoa que trai seus ideais por lucro ou comodismo, negando-se a ver o que acontece a sua volta. Não é definição de dicionário, mas é assim que a prática define. Não, eu não me vendi nem traí nada. Foi só depois que a definição de pelegagem me veio à mente que a sensação da não prática me aliviou um pouco. Naquele momento eu não podia me punir por não acreditar mais numa causa, por não estar ali na rua, sob o sol, segurando faixas ou entregando panfletos como fiz tantas vezes. Minha garganta estava seca... “Nas ruas, nas praças, a luta não sumiu. Aqui está presente o movimento estudantil”, mas eu nem havia gritado. Meus olhos arregalaram, minha respiração perdeu completamente o ritmo habitual. Ainda do ônibus, reconheci algumas das mesmas pessoas na rua. As bandeiras de sempre, faixas com as mesmas frases de dois anos, carregadas pelas mesmas mãos. E por um breve instante era eu com o apito, rosto cheio de protetor solar, suor e crença por todo o corpo. Eu realmente acreditei no que lutava e enquanto cri, estive lá. O espaço de tempo foi muito breve. Apenas os segundos que levei para descer os degraus do ônibus e ganhar a rua apressada, torcendo para não ser vista por nenhum “camarada”. Novamente o sentimento de traição. Cabeça baixa pra não ver de frente. Mas agora eu estava traída. Traída pelo que acreditei. Não queria olhar nos olhos da luta pela qual me dei e que mentiu pra mim, que se mostrou – tão logo lhe declarei minha confiança – ineficiente e reacionária. Contra toda a tirania, os golpes e a opressão... Parecia irônico, mas a minha luta queria ter poder, queria mandar e ter notoriedade acima da causa. Já não se sabia o que vinha primeiro. Ordens e valores no chão ou pior, no bolso.
Não consegui enxergar nenhuma verdade pela qual abrir mão dos meus próprios interesses. Como muitos, segui na direção da rua que levava à minha vida. Só o que consegui ver, por trás dos rostos que me despertaram saudosismo, foram dois ou três lideres partidários, carros de som pagos pelo partido e uma massa de estudantes completamente perdidos e sem ter a real noção do que faziam ali. Eu não estou julgando levianamente. Já estive daquele lado, dos dois lados, apesar de não conhecer propriamente a realidade de representar uma legenda e a ideologia partidárias. Mas eu já vi com olhos pueris e maravilhados aquela coisa bonita nas ruas, todos parecendo tão unidos, realmente enganados e certos do que faziam. Já estive entre eles com direito a todos os sentimentos possíveis misturados e agitados numa bomba emocional caseira, arremessada em longas horas por longas avenidas.
Queria acreditar que existe outra maneira de se fazer mudanças. Será que não percebem que as regras mudaram? Em alguns momentos até parece outro jogo. Deve ter sido isso que vi; uma porção de peões rodando numa mesa de pôquer. O saldo concreto foi a perplexidade de uma população que está acostumada a aceitar calada - e que acreditar que essa é a melhor maneira de levar a vida não adiantará gritar nos seus ouvidos “Vem, vem, vem pra luta, vem!” Que luta? Se eles não sabem e não querem ouvir, não vai valer de nada todo o barulho do mundo. 2OO4, 2OO5, 2OO6, 2OO7... Quais foram as reais mudanças? Qual foi a real diferença que fizemos além de provocar a momentânea revoltas das pessoas que chegaram atrasadas no trabalho ou tiveram que esperar uma hora a mais pra pegar o ônibus e voltar pra casa, pagando a passagem mais cara, mas quem se lembra... “Ainda bem que esses moleques desocuparam as ruas”. Esses moleques parecem estar tão cegos de si mesmos que não percebem que não querem sua luta. Eu realmente estou traída. Minha luta não me deu em troca o que fiz por ela. Minha causa era pelega.

Um comentário:

A. disse...

sinto a mesma coisa em relação ao movimento estudantil da minha cidade, então é provável que seja um sintoma dos nosssos tempos e a maneira distorcida de participar desses grupos, sei lá, há um mal-estar. :(

achei isto belo:
"Já estive entre eles com direito a todos os sentimentos possíveis misturados e agitados numa bomba emocional caseira, arremessada em longas horas por longas avenidas."

;)